Tradição e fé: Irmandade de São José preserva patrimônio histórico em Taquari há mais de dois séculos

Associação bicentenária mantém viva a devoção ao padroeiro e atua na conservação da Igreja Matriz, um dos marcos do Vale do Taquari.

06/08/2026

Por @ClicdoVale | contato@clicdovale.com.br
Em Educação e Cultura

No coração do Vale do Taquari, a cerca de 100 quilômetros da capital gaúcha, a cidade de Taquari guarda um importante legado histórico, cultural e religioso.

Com aproximadamente 27 mil habitantes, o município, situado à margem esquerda do rio de mesmo nome, carrega em sua origem a forte influência da colonização açoriana, iniciada em meados do século XVIII.

Foi a partir da chegada de sete casais vindos dos Açores, por volta de 1764, que se formou o núcleo inicial da cidade. No ano seguinte, Taquari foi elevada à condição de freguesia e recebeu autorização, do então vice-rei do Brasil, Conde da Cunha, para a construção de sua igreja matriz. Em 1766, chegava ao local uma imagem de São José enviada de Portugal, uma peça sacra de grande valor histórico, esculpida em um único tronco de madeira, com olhos de vidro e pintura original preservada até hoje na sacristia da igreja.

As obras da Igreja Matriz São José tiveram início em 1768 e foram concluídas em 1803. O templo integra um conjunto relevante de edificações religiosas erguidas ao longo dos séculos XVIII e XIX nas margens do rio Jacuí e seus afluentes, ao lado de igrejas históricas localizadas em municípios como Triunfo (Senhor Bom Jesus – 1765), Viamão (Nossa Senhora da Conceição – 1770), General Câmara (Santo Amaro – 1787), Cachoeira do Sul (Nossa Senhora da Conceição – 1799) e Rio Pardo (Nossa Senhora do Rosário – 1801).

Poucos anos após a inauguração da matriz, está registrado em ata que, em 3 de setembro de 1806, foi criada a Irmandade do Santíssimo e Glorioso São José, conhecida popularmente como Irmandade de São José. Inspirada em tradições trazidas pelos açorianos, a associação reúne fiéis leigos dedicados ao culto do padroeiro e à manutenção da igreja.

Mais de dois séculos depois, a Irmandade segue ativa e prestes a celebrar seus 220 anos de fundação. Ao longo de sua história, a entidade tem desempenhado papel fundamental na vida religiosa e comunitária de Taquari. Seus membros, chamados de “irmãos”, reúnem-se mensalmente, no primeiro sábado, para participação em missa na Igreja Matriz, entrando em cortejo com suas tradicionais opas bordô.

Na fundação, em 1806, havia oito membros. Hoje, a Irmandade é composta por 78 “Irmãos de São José”, encarregados de manter vivas as tradições, a espiritualidade e o compromisso herdado de seus antecessores.

A presença da Irmandade também se destaca durante a novena em honra a São José, realizada anualmente em março, com celebração principal no dia 19, data dedicada ao padroeiro. Nessas ocasiões, o cortejo parte do salão paroquial até o altar da Matriz. Além disso, todo dia 19 de cada mês é promovido um momento de oração aberto à comunidade, com reza do Terço de São José e adoração ao Santíssimo Sacramento, conduzidos pelos freis franciscanos ou ministros da Eucaristia.

O ingresso na Irmandade segue critérios tradicionais: novos membros devem ser indicados por um padrinho e aprovados por unanimidade pelos demais integrantes antes de serem oficialmente convidados.

A atuação da entidade vai além das celebrações religiosas. Ao longo dos anos, seus membros também se envolveram em ações sociais e atividades nas pastorais, sempre com foco na prática da caridade e no apoio à comunidade.

Um episódio curioso reforça a importância histórica da Irmandade: em 1849, quando Taquari foi elevada à categoria de município, a ausência de autoridades civis fez com que a própria Irmandade de São José fosse encarregada de organizar a primeira eleição local para vereadores, com a participação de cerca de 800 eleitores.

Atualmente formalizada como associação sem fins lucrativos e contando com 78 irmãos, a Irmandade intensificou recentemente os esforços para preservar a Igreja Matriz São José, que enfrenta problemas estruturais decorrentes do tempo, como infestação de cupins e infiltrações. Em 2026, a entidade inscreveu um projeto na Lei de Incentivo à Cultura do Rio Grande do Sul (LIC-RS) para viabilizar a elaboração de um plano arquitetônico de restauração do templo bicentenário.

Mais do que uma organização religiosa, a Irmandade de São José se consolida como um elo vivo entre passado e presente. Ao preservar um dos mais importantes patrimônios históricos da região e manter tradições que atravessam gerações, seus integrantes garantem que a fé, a memória e a identidade cultural de Taquari permaneçam vivas.

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